Ih, é Quaresma!
Sonho de Carnaval
Chico Buarque
Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta feira sempre desce o pano
Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta feira sempre desce o pano
Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
Cordão do Boitolo domina a entrada do Palácio tiradentes no domingo de carnaval de 2009
Dois anos atrás eu publiquei aqui, ao fim do carnaval, uma letra que, finda a catarse coletiva, é lugar comum: A Marcha da quarta-feira de cinzas, de Vinicius de Moraes e Carlinhos Lyra - nas ruas vazias, ninguém passa cantando canções ou a brincar feliz: uma gente que nem se vê, não sorri, não beija nem se abraça, nem sai cantando cantigas de amor... Impressionante a atmosfera do dia de ontem, início da Quaresma - perfeita a descrição dos poetas.
Mas falando em quaresma, ontem o DaMatta publicou n'O Globo interessante artigo sobre a dualidade quaresma/carnaval:
Um mundo sem cinzas-x-x-x-
ROBERTO DaMATTA
“A verdadeira perfeição não é a ausência do mal, mas a sua mais perfeita subordinação.”
Louis Dumont
Venho do tempo que a quartafeira de cinzas era o contrário do carnaval. O carnaval nos dava licença para romper com as regras que governavam elos entre homem e mulher, adultos e crianças, pobres e ricos, trabalho e lazer, casa e rua, dia e noite, brincadeira e gravidade; cuja moldura estava densamente ligada ao mundo religioso e cuja maior e mais legítima expressão era o catolicismo romano. No carnaval “tudo era possível”, e esse “tudo” tinha como eixo os elos entre os sexos (as mulheres subordinavam os homens, o feminino ficava maior e mais importante que o masculino), e o corpo era visto como fonte de prazer e não de pecado. Quando a festa terminava, com a gente cantando em desespero “é hoje só amanhã não tem mais!”, vinha essa tal quarta-feira de cinzas e o salão festivo virava o espaço sombrio da igreja onde éramos obrigados a receber cinzas.
Essas cinzas que, postas em cruz nas nossas testas, abruptamente nos remetiam ao limite, à morte ou, pior que isso, a uma eterna condenação.
[...]
Sem as polaridades não haveria condição humana. Todas as grandes cosmologias foram permeadas por dualismos e as sociedades que os antropólogos descobriram nos seus estudos as usam para inventar e compreender o mundo. Dia e noite, inverno e verão, paraíso e inferno, mortos e vivos, Deus e Satanás, natureza e cultura, homem e mulher, sagrado e profano, esquerda e direita, alto e baixo, dentro e fora, preto e branco, pureza e impureza, velho e novo, feio e bonito, carnaval e cinzas...
A lista de alternâncias, cuja característica principal é a complementaridade e a interdependência, não tem fim. A polaridade indica que um termo não existe sem o outro que é o seu exato oposto, não o seu sinônimo ou paralelo. Ao passo que a complementaridade revela algo que, nós, modernos, estamos tentando acabar faz algum tempo: a interdependência.
[...]
Antigamente a qualidade do carnaval era medida pela intensidade da quaresma, pois, num dado momento, o brincar, o pular, o esbaldarse usando o corpo que nesta festa subjuga a alma termina cedendo lugar às cinzas que representam a morte. O fim do excesso é sinalizado pela contenção. Assim, se o Diabo com sua sexualidade desabrida reinava no carnaval, ele voltava ao seu devido lugar na quaresma. O problema é que o carnaval deixou de ser uma festa obrigatória e virou feriado. Podemos optar por ele ou tê-lo todos os dias, de modo que o espaço entre excesso e restrição se confundiu e talvez tenha terminado.
As cinzas não simbolizam mais o pecado e a morte no plano do religioso que ligava tudo com tudo.
Neste nosso mundo tocado a progresso e liberação, entretanto, as cinzas são apenas os sinais da poluição com a qual vamos destruindo o planeta. Que desastre!
A pergunta que não quer calar afinal é se ¿a orda de beberrões (da qual, confesso baixinho, participei) vai respeitar a quaresma e dar um tempo nos excessos da carne? - porque cortar a zero sei que será difícil...
-x-x-x-
E sobre a reclamação da moda: mijões nas ruas. Vou sugerir uma solução: ao invés do banheiro-químico-padrão, a prefeitura deveria contratar o aluguel de mictórios químicos, que existem em diversos países, como a Inglaterra (foto ao lado). (Obviamente, para as mulheres, haveria banheiros químicos normais.)Inclusive, sugiro até que uma empresa brasileira desenvolva um desenho nacional e produza em massa no Brasil, pois com certeza será um sucesso em qualquer local que aglomere gente, como as praias cariocas, e seria um must em qualquer carnaval brasileiro!



