Quinta-feira, Dezembro 25, 2008

Uma Estória de Natal

Não há evidência direta de que bruxas inglesas usassem cogumelos venenosos como parte de sua poção voadora, mas xamãs (e outros) de partes da Sibéria e da Lapônia realmente consomem o [chamado] Fungo Voador (Amanita muscaria), vermelho com pingos brancos. Este distinto fungo contém a toxina muscimol e ácido ibotênico, que causam os sentimentos de se tornar elevado e levam a sensações de bebedeira.

A publicação de Mordecai Cooke de 1862 [entitulada]
Plain and Easy Account of British Fungi ["Descrição simples e direta de cogumelos ingleses"] descrevia o estado inebriado que segue à ingestão deste cuidadosamente preparado cogumelo venenoso, listando sintomas tais como impressões errôneas de tamanho e distância. Este livro é possivelmente a fonte para o cogumelo ficional que produz os mesmos efeitos quando comidos por Alice no clássico [livro] de 1865 por Lewis Carroll.

[...]

O conhecimento a respeito do movimento engraçado dos xamãs das tribos pastoras de renas da Lapônia sob efeito do Cogumelo Voador é tido por ter inspirado outro autor, Clement Clarke Moore. Seu poema, inicialmente publicado em 1823, começa Twas the night before Christmas ["Era uma vez a véspera de Natal"]. Ele transforma o angelical, sóbrio e cavaleiro São Nicolau na figura coberta de pêlos e inebriada voando alto num trenó puxado por renas. A origem das cores vermelha-e-branca da capa moderna do Noel deve mais ao cogumelo vermelho-e-branco do que à campanha publicitária de um bem-conhecido refrigerante...

Tradução de: HARDING, Patrick. Mushroom Hunting: need to know? Pp: 174-176. London: Collins, 2006.

-x-x-x-

Portanto: Ho-ho-ho! Um Natal psicodélico para todos!

6 Pitaco(s):

Anônimo disse...

Sr. Caetano. Sinto-me obrigado a lhe explicar que "estória" é bobagem, macaqueamento do Inglês, se bem que alguns garantam que Rosa usou a palavra no Grande Sertões - ora, então sugiro que se fale como a gente daquelas plagas, retratada pelo grande escritor.

O correto é história mesmo, com o agá. Como já escreveu o não menos grande Millôr, se querem imitar a língua inglesa, que se use, então, "istória". E estaríamos conversados.

Do mesmo modo, "veado" para solteirão de hábitos estranhos é outra bobagem. O correto é viado, como aliás se fala, que vem a ser corruptela de transviado. C. Q. D.

Caetano Penna disse...

Sinto-me obrigado a discordar em gênero, número e grau. A língua é uma entidade viva, que evolui. Se eu escrevo "estória", fica explícito que se trata de uma narrativa de ficção, o que não ocorre quando uso a alternativa com agá.

Portanto, o uso deste neologismo anglo-francês vem no sentido de enriquecer nossa língua, o que não é o caso de diversos anglicismos deletérios ao vernáculo de Camões e Rosa. Ademais, "estória" consta nos anais do diacronismo português há séculos...

Senão vejamos o que nos informa o Houaiss:

ESTÓRIA
Datação
sXIII cf. FichIVPM

Acepções
■ substantivo feminino
1 Diacronismo: antigo.
m.q. história
2 (1912)Regionalismo: Brasil.
narrativa de cunho popular e tradicional; história

Etimologia
ing. story (sXIII-XV) 'narrativa em prosa ou verso, fictícia ou não, com o objetivo de divertir e/ou instruir o ouvinte ou o leitor', do anglo-francês estorie, do fr.ant. estoire e, este, do lat. historìa,ae; f.divg. de história adotada pelo conde de Sabugosa com o sentido de narrativa de ficção, segundo informa J.A. Carvalho em seu livro Discurso & Narração, Vitória, 1995, p. 9-11; f.hist. sXIV estorya

Caetano Penna disse...

Ah, sim:

C.Q.D.

Anônimo disse...

Como sempre, o Sr. Caetano fez uma brilhante defesa da estória, mostrando que ela está há muito tempo na história da Língua Portuguesa.

Só que ela se tornou, digamos, popular depois que Guimarães Rosa a usou em Grande Sertão Veredas, e não porque já aparecia desde o século XIII. Rosa reiventou a palavra e por isso ela entrou nos dicionários, que, como escreveu Leonam Penna, são o registro civil da língua.

Estória, em Rosa, repetimos, é do falar dos sertanejos e foi macaqueado pelos jovens intelectuais dos anos 60 e 70.

Que o Sr. Caetano continue com suas estórias, porque nós continuaremos com as nossas histórias. Até porque, como mostra Houaiss, ela é sinônimo de história.

Fiquemos por aqui. Obrigado pela atenção dispensada, damos o nosso prefixo, CLRP, e tiramos nossa estação do ar.

Bernard disse...

Schöne und interessante Geschichte, wenn auch etwas unglaubwürdig!! Das ist eine dieser Geschichten, von denen es heißt, sie sei eine Lüge, die wahrer ist als jede Wahrheit! Hattest Du nicht diese Geschichte schon mal auf einer Deiner Internetseiten gehabt??

Caetano Penna disse...

Ja, wohl! Auf "My Northern Face".