quarta-feira, setembro 02, 2015

On flight movies - reviews

Each direct flight between Rio and London takes more than eleven hours, that's when I catch up with latest movies, as I seldom go to theatres or watch them at home. In the past I was more active both watching movies (specially during film festivals) and writing reviews. So, I decided to exercise my non-academic writing once more, and review the movies I watched on board my BA flights to/from London. I'll be brief; only some remarks about each (no spoilers - but, you know, whenever you hear someones opinion you tend to get disappointed - for the best or for the worst - about a movie).

Outbound flight:

Danny Collins, directed by Dan Fogelman

Based on a true story, the movie could have been much better. Instead of exploiting the inner drama of the main character, or going deeper into the drama of his relationships, the movie depicts the story very superficially. It is as if Fogelman was lazy throughout, and did not know how to end the plot.

Cobain - Montage of Heck, directed by Brett Morgen

The cine-biography of Kurt Cobain is not for the fainthearted. His life story is dramatic in itself, and the director managed to capture and present it quite well. I like, in particular, the role played by the animations. I wish we would see more of Kurt talking about himself - but, you know, he wasn't that keen on interviews. The documentary reinforced my dislike for Courtney Love. The big incognitum is why Dave Grohl did not take part in the documentary - 'busy agenda', as it seems he declared to be the reason, seems to me as a lame excuse.

Inbound flight:

Mad Max - Fury Road, directed by George Miller

This action movie entertains, whilst also providing an interesting (and feminist) critique to our capitalist addiction to oil and consumerism. Watching it on a not-so-high definition and very small screen - as I did - is not advised.

The Hobbit - The Battle of the Five Armies, by Peter Jackson

Yet another movie one should not watch on a not-so-high definition and very small screen. To be honest, I only watched it because I had watched the previous movies of the Hobbit trilogy and was curious about the ending. It is entertaining, but after doing it, the feeling is that you've seen that all before - in the Lord of the Rings trilogy.

Get Hard, by Etan Cohen

Note to self: remind yourself of watching more Will Ferrell's comedies! I laughed out so loud that I believe I disturbed my fellow passengers on the flight. This caricature of racist America works well, and I doubt you will not laugh throughout.

Man up, by Ben Palmer

Romantic comedies and British sense of humour: a formula that works. Not as funny as the comedy I watched before, but good enough. I think I identified myself with it, for the moment I'm now in my life. There's a great quote: "You're an emotional jigsaw; you need to piece yourself together. Start with the corners, and look for the blue bits" 

While we are young, by Noah Baumbach

Note to self: remind yourself of NOT watching Ben Stiller's 'comedies'. Worst movie I've watched on the flights, and candidate for worst movie of the year. Pretentious... Not funny... and Stiller, IMHO, is not a great actor, specially on a movie that is more of a drama than a comedy. (OK, I did like him on "The Secret Life of Walter Mitty", but maybe because - just like Keanu Reeves - he is a good actor when his part entails acting clueless, confused and/or surprised.)

Bonus:

Inside out, by Pete Docter and Ronaldo Del Carmen

The latest Pixar animation is a gem! Whilst already available on board of BA flights, I watched it with my little sis and French brother in law on a theatre (in one of only London malls). You know, my little sister, who comes to work in the film industry - and that was the third time she watched it! This, in itself, means something. It's not an animation for kids - although the colours will surely entertain them. The plot is about emotions - Joy, Fear, Anger, Disgust and Sadness - that go inside us from the moment we are born and throughout our lives. Yet another movie with which I identified myself for the moment I'm living. My take on the movie - 'the moral of the story" - is that the battle between Joy and Sadness, in fact, should not be a battle... won't say more not to spoil it. Go watch!

sexta-feira, junho 19, 2015

The Dog



To Bigode
Bigode and me, Arraial dos Tucanos, Paraty-Mirim
© 2015 Alexandre Cappi

And there he comes again:
Friendly and frisky as usual.
Long-lasting juvenile
Trotting over the terrain.

Companionship and guard,
Like a German shepherd.
Always ready and alert,
Like the Saint Bernard.

The most faithful dog of all.
He may not have a pedigree
That us humans create, but

Who can possibly resist
An attack of kisses
From the adorable mutt?




quinta-feira, julho 09, 2009

With a little help from my friends

To all my friends, but in special, to the ones I’ve met again in Tallinn

For the last several years, I’ve been publishing a birthday discourse in my blog(s). This year, however, I didn’t make any speech. Yet, if I had to do a speech during my graduation ceremony – which took place on the 29th of June – I would say something like:

Continues in My Northern Face.

sexta-feira, junho 19, 2009

Lost in translation

Em 2007, quando parti para meu mestrado na Estônia, desembarquei primeiro na Ilha da Rainha. Meu inglês à época não era tão ruim, mas era um tanto precário tendo em vista o dia-a-dia numa nação anglófona. Isto tendo em conta que no IELTS Academic eu levei um 8,5 (máximo 9) - 9 em leitura e 8 em escrita, em escuta e em fala).

Quando retornei para a Inglaterra no natal do mesmo ano, após quase seis meses frequentando as aulas do mestrado, em inglês, e conversando com pessoas no latim dos tempos-modernos, meu inglês era sensivelmente melhor.

Hoje estou de novo à Ilha, mais precisamente em Brighton, e ainda que meu inglês esteja melhor do que há dois anos, sinto ele muito precário, principalmente quanto à fala e, em menor grau, em escuta.

Na fala, o maior problema é minha dicção e vocabulário - este, um tanto quanto limitado; aquela, tentando acompanhar a velocidade do pensamento. Aliás, um dos problemas é justamente que meu pensamento está no "limbo" entre o português e o inglês - e escrever em português para o blog de fato não ajuda.

Para a escuta, o que faz falta também é um vocabulário mais rico e o costume de ouvir o sotaque inglês.

Qual a moral dessa história? Ainda estou para descobrir. Sugestões são bem-vindas.

(O fato é que isso aqui estava precisando de uma atualização.)

sexta-feira, maio 01, 2009

Uma técnica pra lá de medieval

Ontem sofri a extração dos meus dois sisos esquerdos - ai! O superior, que aparece arrancado na terceira foto (abaixo, clique nas imagens para ampliar), saiu com tranquilidade. O inferior - cujo trabalho de extração aparece nas duas primeiras fotografias - fez questão de dar trabalho e só saiu partido em três. Ainda bem que o dentista a me operar foi o Dr. Ronaldo Esteves de Carvalho, um craque em termos de odontologia! (Ressalto este fato, porque, em princípio, estava cogitando me tratar com dentistas credenciados do Amil Dental... A doutora com quem me consultei era muito inexperiente e a clínica a que fui em Botafogo parecia um hospital de campanha - péssimo!)

Enfim, fiquei refletindo sobre odontologia, sisos, evolução humana e evolução das técnicas. Indícios de que a atividade era exercida desde pelo menos 7.000 anos antes de Cristo foram encontrados no Paquistão. No século 18 a.C., o código de Hammurabi previa a extração de dentes como forma de punição - o famoso "dente por dente". Aristóteles e Hipócrates escreveram sobre a prática de tratamento dentário, inclusive sobre a extração de dentes com forceps.

Na Idade Média, a extração de dentes para aliviar a dor era prática comum; normalmente exercida por médicos gerais e - pasmem! - barbeiros (acho que alguns desses continuam na profissão...), uma vez que, até o século 19, consta não haver a profissão de dentista.

Tudo isso pra dizer o seguinte: quase 10 mil anos de história e a única solução encontrada para a má-fromação de sisos é a extração! Alguns seres humanos "mais evoluidos" já perderam o terceiro molar (o próprio: siso, o "dente do juízo"). Praticamente todos - salve raras exceções; casos apresentados em congressos odontológicos - já perderam os quartos e os quintos molares, presentes nas arcadas dentárias dos hominídios pré-sapiens.

Passamos por muitos estágios da técnica, já colhemos, já caçamos, passamos a plantar, criamos rebanhos, inventamos o fogo, a roda, a escrita. Nos localizamos em cidades, começamos a trocar, inventamos a imprensa. Surgiu o capitalismo e percorremos cinco revoluções tecnológicas. A alquimia surgiu e se aperfeiçou, remédios temos para tudo. A anestesia nos salva de muitas dores. As ferramentas de médicos e dentistas são avançadas. Entretanto, para o siso, a solução é a mesma de milhares de anos atrás: arranca!

Só que agora estamos chegando à próxima revolução tecnológica: da biotecnologia, da nanotecnologia, da genética, da infogenética. Será que conseguiremos desligar o gene para o siso ainda nos embriões? Será que já se consegue? Será aceitável? Por que não? Você desligaria este gene para que seu filho não sofresse a extração do siso e a dor correspondente? Comentários são bem-vindos.

sexta-feira, abril 24, 2009

Hermenêutica do olhar

Enche-se de medonha timidez
Equilibrando o passo que dá.
Porque sei o que fez:
Na escola, onde aprendeste a mentir,
Ensinei hermenêutica do olhar.

quinta-feira, abril 23, 2009

Domingo 23

Jorge Ben Jor

Domingo 23
É dia de Jorge
É dia dele passear
Dele passear
No seu cavalo branco
Pelo mundo prá ver
Como é que tá
De armadura e capa
Espada forjada em ouro
Gesto nobre
Olhar sereno
De cavaleiro, guerreiro justiceiro
Imbatível ao extremo
Assim é Jorge
E salve Jorge viva viva viva Jorge
Pois com sua sabedoria e coragem
Mostrou que com uma rosa
E o cantar de um passarinho
Nunca nesse mundo se está sozinho
E salve Jorge
E salve Jorge
Domingo 23
É dia de Jorge
É dia dele passear
No seu cavalo branco
Pelo mundo prá ver
Como é que tá
De armadura e capa
Espada forjada em ouro
Gesto nobre
Olhar sereno
De cavaleiro, guerreiro justiceiro
Assim é Jorge
E salve Jorge viva viva viva Jorge
Pois com sua sabedoria e coragem
Mostrou que com uma rosa
E o cantar de um passarinho
Nunca nesse mundo se está sozinho

© Arlequim
61678210

ficha técnica da faixa:
Guitarra e voz: Jorge Ben Jor
-x-x-x-

Hoje, neste feriado para São Jorge, por acaso e coincidência, fui à praia com uma camisa vermelha. Refletindo a respeito deste dia, lembrei desta bela canção e letra de Jorge Ben Jor. Sempre ficava intrigado "poxa, 'Domingo 23'? Mas é 23 de Abril, nem sempre é domingo..."

Só hoje a ficha caiu: afinal, todo domingo é dia santo e vice-versa.

quarta-feira, abril 22, 2009

Summa cum laude

Pois hoje encerrei meu mestrado nas artes da Governança Tecnológica pela Universidade de Tecnologia de Tallinn, Estônia. Já expliquei em verso e em prosa e já reafirmei o porquê da escolha de um mestrado na Estônia. Afinal, a pergunta que mais escutei - e que ainda escuto - é "por que Estônia?". O fato é que a escolha foi muito acertada, tanto em termos acadêmicos como de experiência de vida. Mas quero contar um caso neste momento em que um ciclo se completa.

A Universidade de Tecnologia de Tallinn é uma das duas melhores universidades da Estônia (a outra é a de Tartu). Minhas aulas eram no prédio do Instituto de Humanidades, quinze minutos andando a partir do prédio principal. Mas eu também visitava frequentemente este, localizado ao lado de onde vivi no início da minha estadia no norte. Tinha aulas de estoniano lá; volta e meia almoçava num dos dois refeitórios do prédio principal; e muitas vezes ia tratar de assuntos no escritório de estudantes internacionais, no segundo andar do prédio.

E sempre que ia ao escritório internacional passava por uma parede repleta de plaquetas de metal cada uma com o nome de quem se graduou com honras, que recebeu "summa cum laude". E sempre pensava: "ainda vou colocar meu nome nesta parede, serei o primeiro Brasileiro com o nome pendurado na parede da Universidade de tecnologia de Tallinn". Este era meu sonho, esta era minha meta.

Ao final do período de aulas, meu sonho ficou mais perto, já que obtive nota máxima (5) em todas as disciplinas. Mas isto não significaria nada se eu não recebesse a mesma nota pela dissertação - mesmo se recebesse uma nota 4 e tivesse média máxima nas disciplinas, isto não me garantiria distinção no diploma.

Hoje eu defendi minha dissertação. Estava nervoso, mas sabia que era possível. Minha confiança aumentou quando o sol saiu, despertou a visão do Cristo Redentor, iluminou a mata em frente à minha janela, de onde se mostrou para mim muito brevemente uma borboleta azul. Alguns desprezam estes sinais, e talvez seja até besteira, mas este azulão me provocou um sorriso e aliviou o meu peito, deixando-me pronto para a defesa do meu trabalho.

Apresentação, confronto por parte da banca, defesa, argumentação. Pausa para a comissão definir minha nota. Suspense. Demoraram mais do que esperava. O que será que será? Qual foi minha felicidade ao receber o resultado da comissão avaliadora: nota máxima, nota cinco!

Hoje, meu objetivo foi alcançado. Em breve haverá uma plaqueta com minha marca na parede da Universidade de Tecnologia de Tallinn. Hoje, meu sonho se realizou.

domingo, abril 05, 2009

The Cat

Remembering Leokádio - Inspired by Princess

And there goes the cat
Happy, and errant,
As no other pet.
Fully elegant,

In his own velvet.
Fancy, and bouffant,
So much arrogant,
As a little brat.

Some call it silly;
Others hate it. Yet,
It walks on smoothly;

And it fears no threat.
Complete mystery –
There it goes: the cat.

-x-x-x-

Este eu publiquei também num domingo, 3 de fevereiro de 2008, no meu blog em inglês: My Northern Face.

...e ainda estou 'devendo' um soneto sobre cães. Quem sabe Casholino não me inspira?

quinta-feira, abril 02, 2009

Ironias cósmicas

And isn't it ironic... don't you think?
A little too ironic... and yeah I really do think...
- Ironic, Alanis Morissette -
Pessoas certas
Cruzam meu caminho
Na hora errada.

É acertar os números da loteria
Com o bilhete da semana anterior.

Ficar em segundo num torneio
Que classifica o vencedor.

Desligar o celular, depois que já tocou.
E pedir desculpas, depois que magoou.

Pessoas certas
Cruzam meu caminho
Na hora errada

São duas pessoas, no mesmo lugar,
Mutuamente atrasadas.

segunda-feira, março 30, 2009

Desserviços

De uns tempos pra cá tenho ficado cada vez mais irritado com a qualidade dos serviços comerciais cariocas. Refiro-me a como somos atendidos em lojas, bares e restaurantes do Rio de Janeiro. É impressionante a lentidão, o mal humor e, por vezes, a ignorância dos atendentes - sejam eles lojistas, barmen ou garçons. Acho que se pode contar nos dedos das mãos os locais em que se é bem-atendido - e ainda assim se perdem os anéis com o preço que se paga nos melhores locais. Talvez pior do que sermos mal atendidos seja ser esnobado pelos atendentes de alguns estabelecimentos metidos à besta. Agora, o fato é o seguinte: se os funcionários estão servindo mal, a culpa é sempre do gerente ou do maître que não está comandando a equipe corretamente. Eu talvez fique mais irritado porque já fui vendedor, e, sem falsa modéstia, sempre fui um vendendor educado e respeitoso, que tentava agradar ao máximo ao cliente, atendendo seus desejos com atenção mas sem ser "mala".

O outro lado da moeda é o seguinte: somos uma sociedade de classes altamente desigual. Economistas já afirmaram que numa sociedade mais igualitária, a primeira classe a desaparecer é a dos servos - quando há um nível mínimo adequado de educação e de oportunidades para todos, é difícil aceitar ganhar a vida servindo aos outros. Mas, cruelmente, tais funções acabam exercidas por imigrantes muitas vezes ilegais.

Em países nórdicos, como na Noruega, há muitos bares e restaurantes sem garçons - o pedido é feito a uma pessoa no bar, que no máximo leva seu pedido à mesa, mas muitas vezes é o próprio cliente quem tem de pegar as bebidas e os pratos de comida no bar. Em outros países, dar gorjeta é até visto como ofensivo. Pelo que se sabe, na Islândia, não havia o costume de deixar gorjetas - "havia", agora com a grave crise que este país insular enfrenta, talvez estas sejam vistas com bons olhos.

De todo modo, acho um certo exageiro alguns custumes desses países. Muito justo que numa sociedade igualitária não haja uma classe de empregados domésticos. Mas se me disponho a sair de casa para pagar por uma noite agradável em um restaurante, quero ser bem servido - caso contrário, não sairia. E é justamente disto que reclamo nos serviços cariocas.

sexta-feira, março 27, 2009

Inócuo

Acepções
adjetivo
1 que não causa dano material, físico, orgânico; que não é nocivo, prejudicial
2 que não causa dano moral, psicológico ou afim; improvável de causar ofensa moral
3 Derivação: por extensão de sentido.
incapaz de produzir o efeito pretendido
Ex.: Hora do Planeta, Basta eu quero Paz, Acenda uma vela na janela
-x-x-x-

Não entendo - e acho-as no mínimo inócuas - as campanhas pseudo-conscientes/conscientizantes tais como "acenda uma vela na janela", "basta eu quero paz" (ambas pela "paz" no Rio de Janeiro) e a mais internacionalmente pop "hora do planeta". Tudo muito bonitinho - e só.

E depois a carruagem volta a ser abóbora, todos vivem felizes para sempre - e nada muda de concreto.

P.S.:
Ser contra um movimento é ainda fazer parte dele.
- Pablo Picasso -

terça-feira, março 24, 2009

O Mago?

- O que você quer de presente de Natal, meu filho?
- Hum... a biografia do Paulo Coelho.
- Hein? A biografia do Paulo Coelho?
- Pois é, não me leve a mal, mas das narrativas literárias a que mais gosto é a biografia. E o Paulo Coelho é uma figura no mínimo curiosa.
- Se é assim, seu desejo é uma ordem.


Mais ou menos assim foi o diálogo entre mim e papai noe... digo, meu pai às vésperas do Natal de 2008. Entretanto, como estava para terminar minha dissertação, acabei só começando a ler as mais de seiscentas páginas da biografia assinada por Fernando Morais em meados de março deste ano.

Pessoalmente, li por inteiro apenas O Alquimista, acho que na oitava série da escola - e o fato de ter sido levado aos alunos pela professora de português da época gerou controvérsia com os pais. Lembro-me que até gostei do que li. Assim, muitos anos mais tarde, acebei tentando ler também Brida, mas não passei da vigésima página - não gostei. Hoje em dia tento, mas não consigo ler suas colunas na Revista do Globo, aos domingos. Por que "não consigo"? Não tenho esta resposta formulada, mas sei que não me agrada a leitura de seus "ensinamentos".

Sei também que a maioria dos meus amigos não lêem Paulo Coelho - ou não confessam que lêem ou leram. E por isto, entre uma conversa jogada fora e outra, mencionava que estava lendo a biografia dele, para ver a reação. Ninguém ficou muito intrigado; acredito que a maioria, por mais que não goste do Paul Rabbit, compartilha a curiosidade a respeito da vida d'O Mago. E que vida controversa!

Como estampa a capa, a biografia trata da "incrível história de Paulo Coelho, o menino que nasceu morto, flertou com o suicídio, sofreu em manicômios, mergulhou nas drogas, experimentou diversas formas de sexo, encontrou-se com o diabo, foi preso pela ditadura, ajudou a revolucionar o rock brasileiro, redescobriu a fé e se transformou em um dos escritores mais lidos do mundo..."

Seria tudo que há na biografia verdade? Não sei. Poderia dizer que "a verdade está na cabeça de quem lê", só pra cunhar um aforismo aos estilo do escritor. Esta dúvida permeia todo o livro, mas Fernando Morais - quem pessoalmente questiona certas passagens - acaba deixando entender que se não é tudo verdade, é tudo bastante verossímil. O início do livro, o início da vida de Paulo é o mais dúbio - não em termos de verossimilhança: Morais parece transparecer o questionamento a respeito da idoneidade do escritor ao longo dos primeiros capítulos. Mas, ao final, o biógrafo parece se entregar a ele que é um fênomeno de vendas no mundo, e reconhecer que Paulo no fundo estaria ao menos procurando fazer o Bem - como com sua ONG de educação para crianças numa favela do Rio de Janeiro - e representar o Brasil no exterior.

Mas é mesmo tudo verossímil? Ele se encontrou mesmo com o diabo? Ele era (é) satanista? Diria um amigo meu: satanista, não - assim é como se refere a Igreja Católica; paganista é o termo correto. De todo modo, algo que me chamou a atenção foi o fato de Coelho ter coincidentemente começado a enriquecer, o fato do dinheiro, inicialmente advindo da parceria com Raul Seixas, ter começado a jorrar em sua conta bancária na mesma época em que firmou seu pacto com o diabo. Coincidências à parte, depois disto, ele nunca mais teve problemas financeiros - ao contrário, mais de uma década depois, passou a figurar em meio à alta aristocracia mundial (vide os encontros em Davos, na Suíça, para os quais tem sido chamado nos últimos anos). Ressalte-se que, segundo o biógrafo, Paulo rompeu o pacto pouco tempo após tê-lo firmado. E, segundo o mestre que o havia iniciado, a prisão no Dops e a tortura no DOI-Codi foram consequência de sua covardia perante o Demônio.

As pessoas mudam, mas é possível romper um pacto demoníaco? Até hoje Paulo pertence a uma ordem das mais secretas, que seria uma ordem cristã, de, digamos, magia branca. Paulo hoje faria o Bem. Mas no início de sua vida, mostrou algumas, digamos, "falhas de caráter". Não digo isto por conta da assinatura que falsificou de seu pai, ainda adolescente, para agradar a um amigo que pedira uma carta de recomendação do patriarca Pedro Queima Coelho. Nem poderia jogar esta primeira pedra, pois eu mesmo, pré-adolescente, me vali desta prática (no caso, da minha mãe) quando esquecia de pedir que assinasse minhas provas (que, em verdade, tinha notas boas).

O que questiono é o fato de, por exemplo, ter publicado, em um jornal da Bahia, como se fosse sua, uma crítica à ditadura militar que na realidade fora obra de Carlos Heitor Cony. Ou por ter ludibriado Toninho Buda, quem de fato escreveu a parte de Coelho no primeiro livro do autor (sic), Manual Prático de Vampirismo - o nome de Toninho não constou na capa, como havia sido prometido por Paulo. Se não bastasse, na tão divulgada peregrinação pelo Caminho de Santiago, que resultou em seu primeiro livro de fato (Dário de um Mago), Paulo usou Toninho Buda - hoje seu desafeto público, segundo consta na biografia - como "escravo" (este é o termo a que se referia a Buda). Pagou um salário de miséria ao cara, e o explorou totalmente. (Esta história pra mim ficou mal contada, acho que há algo por trás dessa escravidão - vindo d'O Mago, deveria ser alguma lição de moral para Toninho, sei lá...)

Enfim, na minha opinião, a biografia é muito bem escrita. Só que, apesar de Paulo Coelho, por ter perdido uma aposta* com Fernando Morais, ter permitido o acesso do biógrafo ao seu baú de diários e gravações, e mesmo sendo uma longa narrativa, algumas pedras do quebra-cabeça parecem continuar ausentes. Recomendo a leitura. Como disse um professor meu, Paulo é mutíssimo inteligente, e isto, aliado à fama mundial, já poderia garantir o interesse em conhecer sua vida. Para fã e críticos, a leitura permite que se justifique as opiniões a favor ou contra com fatos concretos - ou que se mude de opinião. Ou permite que se fique ainda mais confuso com a intrigante figura de Paulo Coelho de Souza - O Mago.

-x-x-x-

*Segundo Morais, em entrevista ao site EGO, a aposta foi a seguinte: "Ele me disse que se eu descobrisse quem era o major que ameaçava arrancar o olho dele pra fora e mastigar, durante uma de suas prisões na época da ditadura, no Paraná , ele me dava à chave do baú. Ele não sabia de nada sobre o tal major, só que era do exército. Daí, fui atrás do almanaque do exército, peguei a época, descobri e mandei pra ele, e ele cumpriu a promessa me dando as chaves". E quem seria este major? O livro não revela. Mas eu tenho uma idéia de por onde começar: ao término do livro, há a seção "Paulo Coelho em números" e, em seguida, se apresenta a relação dos "Entrevistados" para a biografia. Por curiosidade, li um por um os nomes - fiquei intrigado com a aparição na lista de Darc Costa, membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra. Costa não é citado em nenhum momento na biografia, a não ser no rol de entrevistados. Não posso afirmar que ele teria sido o major, nem sei se à época ele era major do exército ou mesmo se servia no Paraná, mas me parece que Darc Costa está relacionado à solução deste - mais um - mistério da vida de Paul Rabbit.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Ih, é Quaresma!

Sonho de Carnaval
Chico Buarque

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta feira sempre desce o pano

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
Cordão do Boitolo domina a entrada do Palácio tiradentes no domingo de carnaval de 2009

Dois anos atrás eu publiquei aqui, ao fim do carnaval, uma letra que, finda a catarse coletiva, é lugar comum: A Marcha da quarta-feira de cinzas, de Vinicius de Moraes e Carlinhos Lyra - nas ruas vazias, ninguém passa cantando canções ou a brincar feliz: uma gente que nem se vê, não sorri, não beija nem se abraça, nem sai cantando cantigas de amor... Impressionante a atmosfera do dia de ontem, início da Quaresma - perfeita a descrição dos poetas.

Mas falando em quaresma, ontem o DaMatta publicou n'O Globo interessante artigo sobre a dualidade quaresma/carnaval:

Um mundo sem cinzas
ROBERTO DaMATTA

“A verdadeira perfeição não é a ausência do mal, mas a sua mais perfeita subordinação.”
Louis Dumont


Venho do tempo que a quartafeira de cinzas era o contrário do carnaval. O carnaval nos dava licença para romper com as regras que governavam elos entre homem e mulher, adultos e crianças, pobres e ricos, trabalho e lazer, casa e rua, dia e noite, brincadeira e gravidade; cuja moldura estava densamente ligada ao mundo religioso e cuja maior e mais legítima expressão era o catolicismo romano. No carnaval “tudo era possível”, e esse “tudo” tinha como eixo os elos entre os sexos (as mulheres subordinavam os homens, o feminino ficava maior e mais importante que o masculino), e o corpo era visto como fonte de prazer e não de pecado. Quando a festa terminava, com a gente cantando em desespero “é hoje só amanhã não tem mais!”, vinha essa tal quarta-feira de cinzas e o salão festivo virava o espaço sombrio da igreja onde éramos obrigados a receber cinzas.

Essas cinzas que, postas em cruz nas nossas testas, abruptamente nos remetiam ao limite, à morte ou, pior que isso, a uma eterna condenação.

[...]

Sem as polaridades não haveria condição humana. Todas as grandes cosmologias foram permeadas por dualismos e as sociedades que os antropólogos descobriram nos seus estudos as usam para inventar e compreender o mundo. Dia e noite, inverno e verão, paraíso e inferno, mortos e vivos, Deus e Satanás, natureza e cultura, homem e mulher, sagrado e profano, esquerda e direita, alto e baixo, dentro e fora, preto e branco, pureza e impureza, velho e novo, feio e bonito, carnaval e cinzas...

A lista de alternâncias, cuja característica principal é a complementaridade e a interdependência, não tem fim. A polaridade indica que um termo não existe sem o outro que é o seu exato oposto, não o seu sinônimo ou paralelo. Ao passo que a complementaridade revela algo que, nós, modernos, estamos tentando acabar faz algum tempo: a interdependência.

[...]

Antigamente a qualidade do carnaval era medida pela intensidade da quaresma, pois, num dado momento, o brincar, o pular, o esbaldarse usando o corpo que nesta festa subjuga a alma termina cedendo lugar às cinzas que representam a morte. O fim do excesso é sinalizado pela contenção. Assim, se o Diabo com sua sexualidade desabrida reinava no carnaval, ele voltava ao seu devido lugar na quaresma. O problema é que o carnaval deixou de ser uma festa obrigatória e virou feriado. Podemos optar por ele ou tê-lo todos os dias, de modo que o espaço entre excesso e restrição se confundiu e talvez tenha terminado.

As cinzas não simbolizam mais o pecado e a morte no plano do religioso que ligava tudo com tudo.

Neste nosso mundo tocado a progresso e liberação, entretanto, as cinzas são apenas os sinais da poluição com a qual vamos destruindo o planeta. Que desastre!
-x-x-x-

A pergunta que não quer calar afinal é se ¿a orda de beberrões (da qual, confesso baixinho, participei) vai respeitar a quaresma e dar um tempo nos excessos da carne? - porque cortar a zero sei que será difícil...

-x-x-x-

E sobre a reclamação da moda: mijões nas ruas. Vou sugerir uma solução: ao invés do banheiro-químico-padrão, a prefeitura deveria contratar o aluguel de mictórios químicos, que existem em diversos países, como a Inglaterra (foto ao lado). (Obviamente, para as mulheres, haveria banheiros químicos normais.)

Inclusive, sugiro até que uma empresa brasileira desenvolva um desenho nacional e produza em massa no Brasil, pois com certeza será um sucesso em qualquer local que aglomere gente, como as praias cariocas, e seria um must em qualquer carnaval brasileiro!


terça-feira, fevereiro 17, 2009

Poesia numa hora dessas?!

Linguagem
Luis Fernando Verissimo

A língua humana tem
entre oito e dez mil corpúsculos
gustativos, e cada corpúsculo tem
de 50 a 75 receptores químicos
de sabor.

Estes receptores têm
uma vida extremamente curta
e são substituídos a,
aproximadamente,
cada dez dias,
meu amor.

O que significa
que de dez em dez dias
nossas línguas têm entre 400 e 750 mil
novas céulas
que nunca provaram
um bife acebolado
um arroz com camarão
uma massa alho e óleo
ou um bacalhau na brasa
sem falar em papo-de-anjo
e licor.

São neófitas em
feijoadas,
virgens de pão francês.
E de dez em dez dias,
querida,
os nossos beijos de língua
são como a primeira vez!

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Words won’t change

That's it /There's no way / It's over, good luck/ I've nothing left to say/ It's only words/ And what l feel/ Won't change
- Boa sorte (Good luck), Vanessa da Mata & Ben Harper -
Words, words, words:
They won’t change –
What I feel
Is the same.

Words, words, words:
Don’t pretend –
What you feel
Is in vain.

From your wound
Set me free.
Where you found

Just let me.
Don’t rebound:
That’s my plea.

-x-x-x-

Mais um meu, do My Northern Face.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Palavras, palavras, palavras

Um dos meus sonetos na língua de Shakespeare, publicado originalmente em My Northern Face.

Words, words, words


Pari siamo! ...io la lingua, egli ha il pugnale*
Rigoletto - Giuseppe Verdi



The words are knives, they cut the soul;
They hurt the ones you like the most;
They may disturb your self-control;
And break the past you’d like to boast.

To mute may be the sharpest blade;
It may distress so much as them;
In times when words just seem to fade;
And verbs have lost their proper stem.

But don’t mistake the lack of sound:
Silence is not an inner moan;
It hides the truth of lonely heart;
It builds a wall and sets apart.

In chest is put the coldest stone,
Displacing what has grown as wound.

-x-x-x-

*We are even! ...I [have] the tongue, he has the poniard

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Uma Estória de Natal

Não há evidência direta de que bruxas inglesas usassem cogumelos venenosos como parte de sua poção voadora, mas xamãs (e outros) de partes da Sibéria e da Lapônia realmente consomem o [chamado] Fungo Voador (Amanita muscaria), vermelho com pingos brancos. Este distinto fungo contém a toxina muscimol e ácido ibotênico, que causam os sentimentos de se tornar elevado e levam a sensações de bebedeira.

A publicação de Mordecai Cooke de 1862 [entitulada]
Plain and Easy Account of British Fungi ["Descrição simples e direta de cogumelos ingleses"] descrevia o estado inebriado que segue à ingestão deste cuidadosamente preparado cogumelo venenoso, listando sintomas tais como impressões errôneas de tamanho e distância. Este livro é possivelmente a fonte para o cogumelo ficional que produz os mesmos efeitos quando comidos por Alice no clássico [livro] de 1865 por Lewis Carroll.

[...]

O conhecimento a respeito do movimento engraçado dos xamãs das tribos pastoras de renas da Lapônia sob efeito do Cogumelo Voador é tido por ter inspirado outro autor, Clement Clarke Moore. Seu poema, inicialmente publicado em 1823, começa Twas the night before Christmas ["Era uma vez a véspera de Natal"]. Ele transforma o angelical, sóbrio e cavaleiro São Nicolau na figura coberta de pêlos e inebriada voando alto num trenó puxado por renas. A origem das cores vermelha-e-branca da capa moderna do Noel deve mais ao cogumelo vermelho-e-branco do que à campanha publicitária de um bem-conhecido refrigerante...

Tradução de: HARDING, Patrick. Mushroom Hunting: need to know? Pp: 174-176. London: Collins, 2006.

-x-x-x-

Portanto: Ho-ho-ho! Um Natal psicodélico para todos!

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Espetáculo Circense

Para surpresa e crítica de muitos amigos, eu fui ao show da Madonna. Mesmo que eu tenha ido mais por impulso, num momento homem-massa, e que um dos propulsores tenha sido a vontade de participar de uma experiência antropológica e sociológica, ter ido ver a "Rainha do Pop" decepcionou a muitos colegas.

Bom, mas o fato é que eu fui, na segunda-feira. Não me arrependi - mas saí com a impressão que era o único presente a achar o evento decepcionante. E olha que minha expectativa inicial já era baixa. Em termos técnicos, o espetáculo é dez. Em termos musicais, zero. Playback + caras-e-bocas por parte da Rainha. Poucos clássicos fazem parte desse show enlatado - e os que estão presentes foram desfigurados. Parafernalhas técnicas são muito bem-vindas em um concerto de rock - Pink Floyd que o diga. Mas não é isso que se vê no show da Madonna.

A sensação é de que fui ver uma ópera-pop-eletrônica com a atriz mais popular e influente da indústria do entretenimento musical. Só que a ópera foi em um estádio de futebol, e como eu não sou "VIP", não pude ver o espetáculo de perto. Acho que uma ópera deveria ser apreciada em um teatro... Até porque para os que estavam na pista o som estava baixo.

Antes do show um produtor apareceu no palco com uma bandeira brasileira - de cabeça para baixo. E a Rainha saiu do palco vestida com uma camisa da Canarinho e enrolada em uma bandeira brasileira que estava... de cabeça pra baixo.

Para mim o "ponto alto" foi o público carioca "homenageando" a atriz com um coro de "Piranha! Piranha!", por conta do atraso de mais de uma hora. Fico imaginando a Madonna no seu camarim perguntando "What are they shouting?" e o relações-públicas tendo de dizer "Erm... well, it's... bitch!". Se rolou esse diálogo eu não sei, sei que a piranha desdenhou do público e nos insultou de volta, e mandou um "Não mexam comigo!". E quando ela canta uma música escolhida pela platéia (cujo nome não faço idéia - o fã que escolheu tirou do fundo do baú) e pede para o público cantar em coro ela foi ainda mais irônico-arrogante: "Até que vocês cantaram direitinho... levam uma nota B-".

E você leva meu aplauso só porque já tem 50 anos.



Música de encerramento do "concerto" de segunda-feira, no Maracanã - e a bandeira ficou de cabeça para baixo...

sexta-feira, dezembro 12, 2008

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Mágica química cutânea

Nada se perde; só se cria.
Duas peles em combustão.
Pura e singela sintonia,
Que de repente surge, então.

Pois quando a química é intensa,
O coração nem sequer pensa,
Dispara e não pára de querer,
Sente compresente um só ser.

Uma inusitada mistura,
Uma reação espontânea,
Rara, mas incrível, ternura.

Paralisia momentânea,
Longa, insaciável loucura:
Mágica química cutânea.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Inglesas no caminho

Era janeiro de 2004. Eu estava em Londres pela primeira vez, após alguns meses morando em Lisboa, outros em Berlim. Havia chegado à Inglaterra por Bristol, para visitar um grande amigo meu que mora na Ilha da Rainha desde 1997. O Rodrigo já havia retornado para sua cidadezinha e eu ficara na casa de um outro amigo, o Inácio.

Era com este que eu estava no metrô quando se sentou na nossa frente uma inglesa bonita. Nós continuamos nossa conversa em bom português - do tema eu não me lembro agora. E ela de repente nos interrompeu, perguntando algo naquele momento incompreensível para nós.

- I'm sorry?

Ela insistiu. Desta vez deu para entender que era português.

- Não é bom usar anel nesse dedo... - cheia de sotaque.

Ela se referia ao meu anel que meu pai comprara pra mim no Alasca cerca de cinco anos antes. Eu sorri!

- Você fala português, como? - perguntei eu, surpreso.
- Sim, já morei em Brazil.

Eu insisti que meu anel era especial, ele deixava a energia fluir, e não havia problema em usá-lo no polegar. Nisso Inácio me interrompeu:

- Cara, é nossa estação...

Eu, bobo, saltei. Para imediatamente me arrepender profundamente. "Por que eu não fiquei conversando com ela? Eu poderia depois seguir pra casa do Inácio, sei chegar lá facilmente. Que raiva!"

E assim, por uma decisão simples, um pequeno detalhe, perdi a oportunidade de conhecer alguém que - quem sabe? - poderia até se transformar em um grande amor.

Poderia? Grandes amores surgem assim, de repente?

No dia seguinte, Inácio e eu seguimos para uns museus e depois fomos visitar amigos brasileiros. Na casa desses estava também a Jo, uma inglesa charmosa. A tarde adentrou a noite. Todos se divertiram bem. Fomos embora todos. Cada um pegar a condução pra casa. A Jo, um ônibus. Inácio e eu, o metrô de novo. Acompanhamos a lady ao ponto de ônibus e ela subiu.

Cinco segundos depois o Inácio vira e fala:

- Cara, gostei da Jo. Você acha que eu devia correr e pegar o ônibus com ela?
- Claro! Vai lá, eu chego em casa facilmente.

Ele foi. Hoje estão casados, moram na Inglaterra e são pais do lindo Jonah.

-x-x-x-

Corta para sábado passado. Morro da Urca. Show de Groove Armada. Coincidentemente, fui com um casal de amigos e com o Rodrigo, o que mora na Ilha. Bacardi Mojito Original distribuído na entrada. Isso depois de algumas doses de vodca Absolut no aquecimento na casa do irmão do Rodrigo. O show já acontecendo, muito bom.

- Caetano, vai pegar um drink pra gente!

E o Caetano vai até o bar do lado de fora, após comprar umas fichas no caixa.

- Me vê dois mojitos, por favor!

E o barman demora. Nisso, no extremo oposto do bar redondo, surge uma linda mulher, cabelos dourados cacheados, olhos claros reluzentes, e um belo sorriso. Anda pelo lado esquerdo até atrás de mim. E decide pedir a bebida ao meu lado.

- O que você vai beber?
- Um mojito frozen de morango - ela responde, com indisfarçável sotaque de inglesa falando português.
- Ei! De onde você é? - eu pergunto, imitando o sotaque.
- Dá Inglaterra - diz ela - mas moro no Rio de Janeiro, em Ipanema.
- Bom, deixa que eu peço seu frozen... O barman já tá me devendo meus drinks, eu peço logo tudo pra ele.

E no que a conversa fluía, o sorriso dela brilhava mais. Eu, é claro, cada vez mais encantado. Simpatia é quase amor, e ela era muito simpática, mais do que eu estava sendo. Até que eu pedi o telefone dela.

- Ah, eu tenho namorado, brasileiro, estamos juntos há três meses.
- Puxa! Mas então me dá seu email.
- Não posso...
- Mas cadê ele?
- Não veio, mas esse aí atrás é amigo dele.

E havia mesmo um cara me encarando feio. Foi quando nossos drinks chegaram e eu me despedi. Fui pra pista em frente ao palco, e ainda pude vê-la mais ao fundo, olhando em minha direção e sorrindo pra mim, com o segurança dela ao lado.

O nome dela? Já me esqueci (ah, mojito desgraçado!). E mais uma vez cruzou a minha trajetória uma inglesa que provavelmente nunca verei de novo na minha vida, por causa de detalhes, pequenas escolhas.

Mais uma inglesa?

Flashback. Volta para junho de 2008. Lapa. Sexta-feira. Fervendo. Pego um táxi e resolvo ir pela Praça Tiradentes, para evitar o nó no trânsito. Iria me encontrar com o Bernardo e a Paulinha (aliás, justamente o casal que foi comigo ao Morro da Urca para ver Groove Armada). O Bernardo é sócio do RioFesta, e ele e seus outros parceiros estavam diversificando o negócio inaugurando o Bar Mofo Lapa.

Saltei na Rua da Carioca, esquina com Lavradio. Passei em frente ao Rio Scenarium. Bombando. Estava choviscando. As mesas do Bar Brasil, na calçada, debaixo do toldo, faziam um corredor, num burburinho típico. Passei por entre elas, pra me proteger da chuva. Dobrei a esquina, descendo a Mem de Sá. O Mofo fica ao lado do Nova Capela, apenas uns dois casarões depois do Bar Brasil. Eu já olhava por cima das mesas em direção ao Mofo, para tentar ver o Bernardo, quando avistei uma linda loira, cara de gringa, sentada sozinha na última mesa do Bar Brasil. Eu passei por ela já pensando em puxar assunto quando ouço por cima do meu ombro:

- Você não é brasileira, né? - um baixinho já iniciava uma abordagem.

Segui meu caminho até o Bernardo, que já queria subir para o show no segundo andar do Mofo. Eu pedi um tempo pra beber um chope e ficar espiando se a gringa iria continuar sozinha.

- Porra, Bernardo, tá vendo ali aquela loira? A gringa tá sozinha, preciso ir lá...
- Ué, vai.
- Olha que eu vou, hein? - autoafirmava eu, tentando superar minha timidez inata.
- Vai, oras!
- Você me espera aqui pra eu subir contigo?
- Espero.

E eu fui. Na verdade, o baixinho estava acompanhado já. Só estava sendo simpático com uma gringa solitária. Cheguei puxando o assunto óbvio.

- Dá licença, tô vendo você aqui sozinha e me chamou a atenção. Você é brasileira?
- Não, sou inglesa. - E ela falava português, autodidata.
- Qual seu nome?
- Cathy.
- Prazer, eu me chamo Caetano.

"O que você faz no Brasil? Como aprendeu português? Eu acabei de voltar da Estônia. Sim, estive na Inglaterra..."

- Será que posso te fazer companhia e beber um chope aqui contigo?
- Claro!

O diálogo não foi exatamente assim, mas resultou nisso. Ficamos conversando cerca de meia-hora. Até que Bernardo me telefona, "vamos embora rapaz". "Mas, Bernardo, posso chamá-la pro Mofo? Tu consegue um ingresso pra ela?". "Consigo".

- Cathy, quer ir no samba comigo aqui ao lado? Meu amigo tem ingressos pra nós.
- Hum... Por que não? Vamos.

Passei o final de semana junto com essa inglesa que estava para se formar em medicina, em Sussex ou Brighton, não me lembro. Desta vez, tratou-se de um desses intensos e curtos encontros.

E, assim, mais uma inglesa cruzou meu caminho para desaparecer logo em seguida.

domingo, novembro 30, 2008

Coincidências?

Duas coisas existem que inundam a alma de assombro e veneração sempre novos, e que se tornam maiores quanto mais frequënte e detidamente delas se ocupa a nossa meditação: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.
Immanuel Kant
"Já faz algumas semanas que não vejo o céu estrelado", pensei eu, em mais uma sexta-feira nublada, quando chegava ao Claro Cine, evento que está sendo realizado no Joquei Clube do Rio de Janeiro - e olhei pra cima. Eis que aparecia por entre as nuvens, na única janela celeste existente naquele momento, toda a constelação de Orion, o guerreiro, com seu cinturão e seu arco-e-flecha.

Era o dia seguinte a uma quinta-feira de atmosfera inusitada, daquelas em que se sente uma vibração diferente no ar. Percebi-a na academia, quando fui malhar à tarde: "o clima aqui está diferente, uma azaração maior do que a de costume... vai ver a lua mudou hoje". Bingo! Chequei depois o calendário, e, de fato, a lua nova havia começado exatamente naquela quinta.

-x-x-x-

Ou, como bem disse Hamlet: "Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que é sonhado em sua filosofia".

(There are more things in heaven and earth, Horatio,/ Than are dreamt of in your philosophy - normalmente traduzido por "Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia".)

terça-feira, novembro 18, 2008

Por que Estônia?

Ter escolhido estudar na Estônia causa surpresa em 11 em cada 10 pessoas com quem converso a respeito. Normal - acredito que eu mesmo ficaria curioso ao conhecer um alienígena que decidiu estudar no Pólo Norte ("onde fica a Estônia mesmo?").

Já expliquei o porquê tanto em verso quanto em prosa, mas vou reafirmar aqui o principal motivo: fui atrás de um grupo de economistas que figuram entre os melhores acadêmicos não-ortodoxos de que tenho notícia. Citei no texto em prosa Erik S. Reinert e Carlota Perez. Mas agora posso apontar outro, que deu entrevista ao jornal O Globo no último domingo: o pós-keynesiano Jan Kregel. Estudei ainda com Wolfgang Drechsler, "neto" de Heidegger, uma vez que é "filho" (pupilo) de Gadamer - ambos, para quem não sabe, eminentes filósofos alemães do século passado. Enfim, o idealizador do mestrado é o meu atual orientador Rainer Kattel, o mais jovem professor-doutor da academia estoniana.

E por falar em Estônia, neste final de semana acontece um Festival de Cultura Brasileira na capital Tallinn (Tallinn Winter Tropics Festival), com apresentações de capoeira, desfile de bloco carnavalesco e shows de Elza Soares e Farofa Carioca. Uma pena que não estou lá...

quinta-feira, novembro 13, 2008

Primeiro, o diagnóstico

Este é meu texto que acaba de ser publicado hoje pela editoria de Opinião n'O Globo (pág. 7). Uma versão estendida do mesmo está disponível no Deus Mercado, meu blog de economia.

Em meio à crise econômica mundial, acontece em Washington, depois de amanhã, o encontro dos chefes de Estado do G-20. É esperado que os principais líderes mundiais apresentem propostas para evitar uma depressão econômica. Mas, para que as medidas sejam eficazes, é preciso que se tenha claro o diagnóstico do problema. Como explicar então a maior crise econômica desde 1929?

Com pertinência, um economista que vem sendo lembrado nos últimos tempos é Joseph Schumpeter. As idéias desse austríaco dão pistas importantes sobre os ciclos capitalistas. Assim, convém ouvir o que têm a nos dizer seus seguidores. E uma destacada economista que trilha esse caminho é a venezuelana Carlota Perez, que desenvolveu o modelo dos chamados "Grandes Surtos de Desenvolvimento".

No modelo de Perez, a economia mundial está agora no "Ponto de Inflexão" da quinta revolução tecnológica (da informação e comunicação). Esse período começou com o colapso da bolha da nova economia em 2000. Durante as décadas iniciais de uma revolução tecnológica, ativos da nova economia apresentam retornos significativamente maiores que os demais: há um investimento massivo na sua produção, mas, na esfera financeira, há um frenesi que culmina numa grande bolha de tecnologia. Ainda que a riqueza imaginária em parte desapareça com o estouro da bolha, a rede real de infra-estrutura permanece, atingindo cobertura suficiente para se tornar uma conseqüência positiva do frenesi.

Mais do que uma infra-estrutura física, a fase de frenesi deixa como legado três tensões estruturais, conseqüências negativas do descontrole financeiro. A primeira se dá entre riqueza monetária e real, que não é totalmente resolvida com o estouro, requerendo um realinhamento institucional e regulatório na esfera financeira.

A segunda e a terceira são resultado da polarização da renda correlata: uma tensão é econômica — há grande capacidade de oferta, mas, porque a riqueza está concentrada, não há suficiente demanda efetiva; a outra é de cunho sociopolítico, decorrente da tensão anterior, e que pode se manifestar como agitação política ou pressões migratórias. Na era atual, essas tensões se manifestam não só em termos nacionais: com a intensa globalização, as contradições têm caráter mundial. Para resolver essas tensões estruturais, são necessárias medidas que recoloquem ênfase da economia na produção e que permitam a partilha dos frutos do aumento de produtividade.

Ou seja, o realinhamento institucional e regulatório para assegurar o total aproveitamento da revolução tecnológica presente é ainda a tarefa a ser feita. Quando os representantes políticos das principais economias mundiais discutirem suas propostas em Washington, esperamos que as idéias dos acadêmicos que possuem um diagnóstico bem acurado para a crise atual estejam também presentes. Afinal, foi o grande acadêmico John Keynes quem salvou o capitalismo da última agonia de que se tem notícia...

sábado, novembro 08, 2008

Vote no Pão de Açúcar

Pois é, sou contraditório dentro da minha coerência interna. No último texto falei para não votarem no Sugar Loaf, para diversificarmos as maravilhas eleitas pelo Brasil. Mas acontece - e eu sabia, mas porque estava de mau-humor, ignorei - que cada pessoa vota nas sete maravilhas que escolher. Assim, pode-se votar em todas as candidatas a maravilhas do Brasil. Seria um voto bem tendencioso. No meu caso, vou votar no que acho ser as verdadeiras maravilhas naturais. Qualquer hora publico-as aqui.

sábado, novembro 01, 2008

Não vote no Pão de Açúcar

Sou carioca e votei na estátua do Cristo Redentor para uma das Nova Sete Maravilhas do Mundo. Mas não vou votar e acho que não se deve votar no Pão de Açúcar para uma das Sete Maravilhas da Natureza. A razão é simples: por mais que o Sugar Loaf seja maravilhoso, ter duas Maravilhas na mesma cidade é contraproducente para o Brasil em termos de turismo. O turista que esteja, digamos, num cruzeiro ou num tour mundial que percorra todas as 14 maravilhas vai de todo modo visitar o Pão de Açúcar também quando vier ver o Cristo. Economicamente para o Brasil é melhor que seja escolhida outra maravilha natural. Do Brasil, além do Pão de Açúcar, estão concorrendo Fernando de Noronha, Lençóis Maranhenses, Cataratas do Iguaçu, Floresta Amazônica e Chapada Diamantina (nem todos têm suporte oficial, o que invalidaria a candidatura). Enfim, eu vou votar nas Cataratas, porque do resto eu sinto ciúmes, e quero resguardá-las dos gringos. :-)

Vote nas Cataratas do Iguaçu!
(P.S.: Esta foto, apesar de linda, não é minha.)


Update 31/03/2009: PAREM AS MÁQUINAS! Sei que esta é a primeira imagem que tem aparecido na busca de imagem do Google quando se procura pelas cataratas - mas notem que ela sequer esta hospedada em meu domínio. Acabei de achar uma apresentação de estudantes que utilizaram esta foto, e me deram os créditos. Gente: esta foto não é minha. Ela está hospedada no domínio hillsviagens.com - e o mais interessante: se vocês clicarem nela na foto ou digitarem www.hillsviagem.com abrirá um vídeo no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=h7JXBr9ra0I).

quarta-feira, outubro 29, 2008

Decepção

Como para muitos cariocas, esta semana começou com uma decepção - devido ao que aconteceu no segundo turno das eleições municipais. Não, eu não me decepcionei com a derrota do Gabeira em si. Para ele, aliás, a campanha foi uma vitória. Mas eu não me contento com "o exemplo da metade da população do Rio, que escolheu uma outra forma de fazer política". Queria mais, sim.

No entanto, eu me decepcionei, em primeiro lugar, com amigos e amigos dos amigos, e com todos os cariocas em geral que se abstiveram para viajar, aproveitar uma Prainha, curtir Búzios, Angra, a Serra.

Decepcionei-me também com os amigos que anularam o voto, "porque os dois candidatos são (sic) a mesma coisa"; "porque o Gabeira está sendo apoiado pelos tucanos" - não enxergaram a enorme diferença entre Gabeira e Paes, e que o apoio dos tucanos não mudou o caráter do Gabeira. Queria saber se eles - meus amigos que anularam - ficaram mais felizes com o resultado, com o Paes prefeito - um prefeito apoiado por milicianos e políticos comprovadamente corruptos. Um prefeito, aliás, que nomeou já seu primeiro secretário: um vereador tucano.

Decepcionei-me também com a mídia, que faz do cidadão mero coadjuvante nesta democracia tupiniquim, transformando-lhe em mero "eleitor" por um mês a cada dois anos (nos outros dias faz dele um "torecedor"). Um jornal carioca foi exemplar na segunda-feira que passou: estampou as promessas de Eduardo Paes, prefeito eleito, com a sutil legenda "GUARDE PARA CONFERIR DAQUI A QUATRO ANOS". Quer dizer, por quatro anos, cidadão, fique no seu lugar, não se meta na política - é a idéia que nos passa esse jornal. Daqui a quatro anos, confira se ele fez o que prometeu, se não, cidadão, faça seu papel de eleitor e vote em outro. Aproveite sua chance em cada eleição, porque depois a carruagem volta a ser abóbora e você, cidadão, passa a coadjuvante de um filme de mal-gosto.

No mesmo sentido, decepcionei-me com o Tribunal Superior Eleitoral, cuja campanha de "conscientização" (engraçada, até) foi, de fato, de alienização, com conteúdo similar ao que publicou esse jornal: "pense bem antes de escolher o seu prefeito, porque nos próximos quatro anos ele vai administrar a sua cidade" - só faltou dizer "e você não irá/poderá fazer mais nada a respeito".

Deixei pro fim a decepção que também poderia ter sido inicial, com o próprio Gabeira, que, para mim, perdeu esta eleição por conta não só das abstenções mas, principalmente, por causa da declaração infeliz sobre sua vereadora aliada mais bem votada, chamando-a de "analfabeta política" e "com pensamento suburbano". Que inépcia!

Mas, e agora? Só daqui a quatro anos?

quarta-feira, outubro 15, 2008

Uma frase de Ortega y Gasset

"Dou o que tenho; que outros, capazes de fazer mais, façam seu mais, como eu faço o meu menos".
José Ortega y Gasset

terça-feira, outubro 07, 2008

Sobre filmes e livros

Não em lembro ao certo quando foi; mas foi no começo deste século, entre 2000 e 2002. E sei que foi o primeiro livro que li do autor. Ensaio sobre a cegueira, do prêmio Nobel português José Saramago me marcou fortemente. Era uma época em que eu estava no auge do meu idealismo. Tinha certeza que eu e meus amigos conseguiríamos facilmente mudar o mundo. Um mundo decadente, muito bem descrito na obra de Saramago; um mundo que a maioria da população parecia - e ainda parece - não enxergar.

O que falar do Rio então? O Rio já ia mal (agora vai pior). Alguns anos depois de ter lido esta obras-prima do escritor lusitano, foi lançado o documentário sobre trágico incidente do ônibus 174. Assisti a este filme antes de fazer intercâmbio na Europa em 2003; e assisti ao filme novamente na Alemanha nesse ano. Fiquei impressionado com o contraste de sentimentos que ver o filme em países com realidades tão distintas sucitou. Daí acabei por escrever uma crônica que entitulei, justamente, "Ensaio sobre a cegueira". (Por oportuno: ainda não assisti ao Próxima parada.)

Agora em 2008 fui ver Ensaio sobre a cegueira, o filme, dirigido por Fernando Meirelles. Trata-se de um dos poucos casos em que um filme consegue ser tão bom quanto o original literário. O diretor conseguiu reproduzir fielmente em cenas o que o escritor intentou descrever por palavras. Os recursos de Meirelles para retratar o "mal branco" são simplesmente sensacionais. A película é um soco no estômago, e ninguém que o veja passa incólume. (Aliás, as cenas do filme lembraram-me da situação dos desabrigados pelo furacão Katrina, que na época trouxe-me à memória o livro de Saramago- a ficção copia a realidade que copia a ficção que copia a realidade)

E pra continuar falando de filmes baseados em livros, volto ao maravilhoso Into the wild, cuja crítica escrevi em inglês num dos meus outros blogs. O filme foi dirigido por Sean Penn, e gostei tanto do que vi que decidi ler o livro homônimo escrito por Jon Krakauer. Li o livro em inglês (que já foi traduzido para o português, editado pela Cia. das Letras - mesma editora de Saramago, aliás - sob o título "Na Natureza selvagem"). Talvez por isto - achei o vocabulário do livro mais difícil do que costumo encontrar em textos acadêmicos, por exemplo -, repito, talvez por ser em inglês, eu tenha gostado mais do filme do que do livro.

Mas não acho que seja só isso. O livro é sensacional, pois não trata apenas da história de Chris "Supertramp" McCandless, também narra outras histórias de aventureiros no Alasca, como uma do próprio autor. Só que Sean Penn consegue retratar em seu filme de forma sui generis sentimentos que estão concentrados em um ou dois capítulos do livro. E a atuação de Emile Hirsch como McCandless é muito boa, comovente.

Ou seja, para mim, Into the wild, o filme, consegue superar Into the wild, o livro - talvez um dos poucos casos do tipo. Sem falar que o filme conta com trilha sonora de Eddie Vedder (clipe abaixo).


sábado, setembro 27, 2008

Espaço Telezoom

Semana passada (quinta, 18/9) aconteceu a inauguração do Espaço Telezoom, o mais novo centro de cursos especializados do Rio de Janeiro, localizado na Dias Ferreira, Leblon. O foco do Espaço é a cultura, em especial, cinegrafia, mas não se restringe a isso. Esta semana que passou, por exemplo, aconteceram palestras dos principais candidatos à prefeitura do Rio. Nas próximas semanas, haverá diversos cursos, de cinema, filosofia e arte. Deêm uma conferida no sítio do Espaço Telezoom!

O evento inaugural foi para nós especial, pois se tratou do re-lançamento do meu pai - Carlos Leonam -, com uma exposição de fotos de celebridades e famosos, em sua maioria do/no Rio de Janeiro dos anos 1960 aos 1980. Fotos de Tom Jobim, Dorival Caymmi, Pelé, Carlos Lacerda, Gláuber Rocha, Leila Diniz, Nara Leão, Chico Buarque, dentre outros. (Por oportuno: você sabia? A foto do Chico na capa do álbum "Construção" foi feita por Leonam)

A gente aproveitou que o fotógrafo Paulo Jabour estava presente e lhe solicitou alguns registros para posteridade:


Com minhas maninhas e papai - esta saiu no caderno Zona Sul d'O Globo de quinta (25/9)


Com mami e maninha
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sexta-feira, setembro 05, 2008

Sobre revoluções tecnológicas

Como as Olimpíadas terminaram, mudou o disco e agora eu estou escrevendo sobre temas mais sérios. Daí estar eu publicando mais no meu blog de economia.

No artigo da semana eu tento explicar o modelo histórico-analítico de Carlota Perez, que interpreta o modo como as revoluções tecnológicas geram ciclos longos de crescimento e crise no capitalismo: 
Foi o russo Nikolai Kondratiev quem propôs, a partir de estudos econométricos, a existência de grandes ciclos econômicos na história do capitalismo, com fases de crescimento prolongado sucedidas por longas crises. Esta idéia de “longas ondas” foi posteriormente explorada por Joseph Schumpeter, a partir dos anos 1930, que ressaltou a importância das inovações no processo de crescimento e crise do capitalismo. Para este economista austríaco, as inovações radicais de empreendedores é que acabavam por gerar longos ciclos de crescimento econômico, muitas vezes destruindo um paradigma já estabelecido, num processo de “destruição criadora” (conceito já presente na obra do economista alemão Werner Sombart).

As idéias de Schumpeter deram origem a uma escola de pensamento econômico, atualmente conhecida como Neo-schumpeteriana. É nesta escola que se pode inserir o pensamento da venezuelana Carlota Perez.
Dêem um olhada por lá: Deus Mercado, onde o texto continua.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Deus Mercado

Decidi reabrir meu blog sobre economia, o Deus Mercado: http://deusmercado.blogspot.com

O texto de reabertura versa sobre a intenção de se criar uma nova empresa estatal para "administrar as reservas de petróleo localizadas na região pré-sal"...

Incertezas jurídicas & Ingerências políticas

Cada vez mais controversa, uma vez que não se fala concretamente qual o princípio balizador ou o objetivo final da medida, a idéia de se criar uma nova empresa estatal para, genericamente, "administrar" as reservas localizadas na camada pré-sal parece coisa de político brasileiro. E é, claro. Até o momento, não foi dada qualquer justificativa racional para tanto.

Um dos atrativos do Brasil desde a quebra do monopólio de juri da Petrobras e da desregulamentação do mercado, com a outorga da chamada Lei do Petróleo, em 1997, foi, justamente, a estabilidade do quadro jurídico e do sistema fiscal do setor de petróleo.

(...)

Confira a íntegra no Deus Mercado.

Ponto final

Bom, depois de ler a entrevista do Bernardinho, decidi finalizar a enquete (45% acharam que Ricardinho fez falta nas finais da Liga e faria falta em Pequim; 45% acharam que ele não faria falta em nenhum dos eventos; e 10% acharam que ele fez falta no Rio, mas não faria em Pequim). De fato, parece óbvio que o Ricardinho fez falta - como o próprio Bernardo reconhece. Fico triste que um dos melhores jogadores do mundo fosse inconciliável com a seleção...

Leiam a ótima entrevista com o técnico. Destaque para o trecho em que Bernardinho fala do conflito "técnico x pai".



Mais uma coisa sobre o Bruno, já que você mencionou a família. O que foi mais duro pra você, a lição que você aprendeu lá atrás ou ver o Bruno aprender essa lição? Ele saiu da quadra muito triste hoje...

Bernardinho: Eu digo assim...é sempre muito mais fácil lidar com a própria dor, né? Com a dor dos outros é horrível. Com a dor de um filho é impossível. E ainda, naquele momento, não dá nem para você ir ali e abraçar como pai, você tem que abraçar como treinador. Você tem que ir ali e dizer "Ei... vem cá, deixa disso". É horrível. Mas tem outra coisa, caramba, vice-campeão olímpico, com 22 anos de idade, campeão, veio aqui, fez a parte dele. A postura dele. Certamente ele conseguiu realizar muito mais disso aqui do que eu. Então eu tenho muito orgulho. Espero que ele se torne, espero, sinceramente, como treinador, que ele se torne um líder dessa futura geração, porque ele tem personalidade pra isso. É um bom jogador. Tem que crescer muito ainda. E, principalmente, tenho certeza que o que ele aprendeu aqui em Pequim e nesses dois anos com a gente, ele vai ter condições de empunhar a bandeira e seguir em frente com os princípios que devem nortear o trabalho de uma seleção brasileira, um grupo de pessoas. Acho que isso é mais importante. Acho que a gente tem que pensar um pouco nisso tudo, sabe. Por que o assistente dos Estados Unidos me deu um livro chamado "Integridade" num momento de crise? No Pan-Americano ele me deu um livro chamado "Integridade". Um senhor, aquele mais senhorzinho deles. Alguma razão, né? Por isso eu sou fã dos caras, porque eles sabem, reconhecem, enfim, sabem o que a gente passa e como as coisas acontecem. Valeu? Fui, galera!

P.S.: Eu aposto que o Bruno vai ser um jogador sensacional; se aguentar a pressão, será o melhor do mundo.

domingo, agosto 24, 2008

Fez ou não fez falta?

Pois é, as olimpíadas acabam de terminar, mas ainda resta assunto.

Perdemos a final do voleibol masculino. Acontece. Em primeiro lugar, deve-se dizer que esta derrota é "um ponto fora da curva de sucesso" da equipe comandada por Bernardinho, um dos melhores e mais vitoriosos técnicos do mundo, que comandou uma equipe ímpar. É, por isto mesmo (por ser uma exceção), uma pena, pois muitos jogadores não disputarão as Olimpíadas de Londres, em 2012. O ouro em Pequim coroaria um ciclo fantástico.

Com a vitória, os EUA sagraram-se "campeões do vôlei" na China, uma vez que levaram o ouro na quadra masculina, a prata na quadra feminina, e os dois ouros da praia. Já o Brasil levou um ouro, na quadra feminina, duas pratas, na quadra masculina e na praia idem, e um bronze na praia masculina. E os EUA agoram têm três títulos olímpicos, superando o Brasil, com dois.

Pessoalmente, achei que Ricardinho fez falta nas finais da Liga, realizadas no Rio de Janeiro, e estava achando que faria muita falta em Pequim. Ainda acho que um jogador com ele sempre fará falta, mas conseguimos chegar a final em Pequim sem ele e começamos jogando bem a partida contra os EUA, ganhando um set. Não se pode atribuir a derrota à ausência do levantador; pode-se apenas especular que as coisas seriam diferentes com ele. O detalhe é que perdemos nas Olimpíadas para as mesmas equipes de que perdemos no Rio de Janeiro: Rússia e EUA.

O Brasil errou demais depois do primeiro set, e, principalmente, depois da abertura arrasadora do segundo, em que os EUA fizeram 6 x 0 com os saques de Stanley - este americano acabou com o Brasil! Muitos méritos da equipe americana; Stanley foi muito bem assessorado por Ball (o cara se chama "Bola", tem de jogar bem!) e por Priddy. O problema do Brasil não foi a armação das jogadas - Marcelinho levantou bem (apesar de ter cometido algumas falhas cruciais) e o ataque colocou bolas no chão -, o problema maior foi justamente o passe para o Marcelinho e o saque. O Brasil pareceu incomodado e desconcentrado com o sucesso do saque americano, quebrando o passe brasileiro, e deu a impressão que queria mostrar que poderia forçar seu próprio saque também. Além disso, a equipe deixou de converter diversos contra-ataques, além de ter perdido alguns lances de bobeira.

Enfim, valeu a prata. O Brasil se superou. Parabéns!

P.S.: Foi só em mim ou o mal-pressentimento bateu na torcida do Flamengo também quando o Galvão Bueno mencionou que o recém-nascido filho do Marcelinho estava "assistindo ao jogo vestido com uma camisa do Vasco"? A impressão foi que o próprio narrador-pé-frio sentiu vontade de zoar e dizer "Vasco? Vice de novo..."

P.S.2: Aliás, quem quer ver "a família do Marcelinho", "a família do Gustavo", "a família de cliclano", "a família de beltrano"? Se já não bastasse as emissoras colocarem picture-in-picture eventos que eu não escolhi ver, ainda gastam espaço da minha limitada TV com as "famílias"!

quarta-feira, agosto 20, 2008

Uma Curta olímpica e uma longa futebolística

1. Se o levantador Marcelinho continuar sua evolução ascendente, servindo nossos atacantes com precisão técnica e velocidade, passo a acreditar que Ricardinho fez falta na Liga, mas não fará falta para a conquista do ouro olímpico. Mas é agora que a seleção de voleibol masculina será testada a valer.

2. Sendo um tricolor saudável, além de ter ficado com raiva pelo desastroso desempenho da seleção brasileira de futebol contra a Argentina, fiquei com ainda mais raiva do Dunga, que desfalcou o Fluminense ao chamar Thiago Neves - melhor jogador da seleção nas Olimpíadas e nos jogos preparatórios - e Thiago Silva - que "é o melhor zagueiro do Brasil". Não dá pra entender o porquê do Neves não ter entrado como titular na vaga do Anderson, por exemplo. E o tal Dunga foi logo substituir o melhor volante em atuação contra os argentinos - Hernanes - para lançar o meio-campo das Laranjeiras. Já sobre Thiago Silva, cabe destacar que o zagueiro foi um dos três jogadores convocados com idade acima do limite olímpico. Se era pra deixar no banco - e ele já estava recuperado de leve contusão - então pra que chamou?

Não dá pra jogar acuado contra a seleção argentina. O pior é que o "técnico" reconheceu que a equipe brasileira atuou da mesma forma que vinha jogando. Ou seja: vinha jogando sempre de forma vergonhosa... Aposenta, Dunga!

Aproveito para levantar a questão: por que não nomear um técnico estrangeiro para dirigir a seleção de futebol do Brasil? Acho que um técnico holandês viria bem a calhar, haja visto que a "escola holandesa" de futebol é talvez a que apresente mais semelhanças com a brasileira na Europa. Apesar de estar treinando os russos, meu voto vai para Guus Hiddink. Acredito que o futebol brasileiro só teria a ganhar com um técnico estrangeiro.

terça-feira, agosto 19, 2008

Fora Dunga já!


Já está mais do que na hora de demitirem esse tal que colocaram para comandar a Seleção Brasileira de Futebol... Aliás, inventaram que o rapaz é técnico. Nunca dirigiu qualquer clube, como pode cair de para-quedas no selecionado mais cobiçado do mundo?

Inicio a campanha "Fora Dunga já!" Vote na enquete em http://foradungaja.blogspot.com/ e participe! Chame seu cunhado, sogro, sogra, irmão, pai, mãe, cachorro, papagaio, periquito e vamos juntos derrubar o pior "técnico" que a Seleção Canarinho já teve.

Vamos logo, antes que seja tarde...

domingo, agosto 17, 2008

Tears in heaven (lágrimas no paraíso)

No Brasil, é notória a falta de políticas públicas para incentivar a prática de desportos - políticas essas que muitas vezes são substituidas por medidas populistas, como foi o caso do Piscinão de Ramos, obra construída para uma população que em sua maioria não sabe nadar.

Foto: Marcelo Pereira (hospedada em http://www.terra.com.br)

Mas, de uma forma ou de outra, o atleta acaba consequindo superar esta primeira adversidade, tendo acesso a instalações desportivas precárias e a técnicos engajados. Se o atleta se destaca, tende a ir morar e treinar no exterior. Afinal, no Brasil não tem piscina pública de 50 metros de alta classe - tem Piscinão de Ramos. Mas o atleta milagrosamente se classifica para representar o Brasil em mundiais de sua modalidade e nas Olimpíadas. Representar o Brasil. Esta parece ser a maior adversidade de todas.

Foto: Getty Images

Nossos atletas apresentam o despreparo psicológico de quem acha que melhorará a vida de 190 milhões de brasileiros simplesmente ao conquistar um título, uma medalha; de quem inconscientemente pensa que vingará muitos séculos de expoliação das nossas riquezas trazendo o Ouro de volta pra casa.

Foto: AP (hospedada em http://globoesporte.globo.com/)

"Peço desculpas ao povo brasileiro", disse Diego Hipólito após cair na apresentação final da prova de solo em Pequim. Acredito que em nenhuma outra delegação houve tantas lágrimas como na brasileira. É lágrima por ser cortada; lágrima por ser assediada; lágrima por perder; lágrima por vencer; lágrima pelo outro; lágrima por si; lágrima por existir. Lágrima por ser brasileiro.